Quem sou eu

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O grupo Mulheres 4 Estações,nasceu do encontro de ideias de 3 mulheres, ao perceberem em si o quanto é prazeroso e enriquecedor a troca de vivencias, já que tantas vezes nos reconhecemos no pensamento e sentimento alheio. Então veio o desejo de compartilhar essa experiencia com outras mulheres..... e assim como a natureza se reveste das estações para se revelar aos nossos olhos,nós nos revestimos do falar e ouvir, para nos revelar a nós mesmas.........

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Palavras sobre o papel

Ei moço, deixa escapar esse grito preso na garganta, não é bom guardar tanto sentimento assim. 
Se não consegue falar, permita que escorra em forma de letras e caiam sobre o papel.
Talvez ao primeiro olhar elas pareçam desconexas, confusas.
Mas conforme for dando à elas um pouco de si, vai perceber que vão tomando forma - e ao mesmo tempo em que você se esvazia de tudo que te machuca - se preenche de alívio.
As palavras escritas tem esse dom, libertar a tristeza que aprisiona a alma.  
E a tua alma é tão bonita, não merece que você a transforme em um porão fechado, úmido e frio. 
Por isso, só por hoje, se ponha a escrever e permita que o sol lhe beije a face, a esperança afugente essa melancolia. 
Amanhã? 
Ah, amanhã você faz tudo de novo e depois de amanhã, depois e depois...

(Sônia A.)


domingo, 3 de setembro de 2017

NOVOS CAMINHOS

No mês de agosto, encerramos os encontros mensais das mulheres 4 estações.
O intuito dos encontros, era nos dar a oportunidade do auto conhecimento - através da partilha das nossas vivências - tudo feito de uma forma artesanal, mas com muito carinho e cumplicidade. 
Foram 3 anos de troca e aprendizado e sou muito grata a cada uma das participantes, pela oportunidade. 
Mas há momentos em que é preciso fazer escolhas e isso implica, muitas vezes, abrir mão de algumas coisas. E por conta de novos projetos e afazeres, que andam me deixando com o tempo bem limitado, foi justamente o que aconteceu.
É também por falta de tempo que demorei vir aqui, fazer nova postagem, e quase não tenho visitado os blogs amigos que tanto gosto.
Mas hoje, vim matar a saudade desse cantinho e deixar o meu abraço e carinho, para quem aqui passa.

                              (Foto: Andrea Giovanna)

                                      "A Vida sempre oferece
                                  infinitas possibilidades de caminhos,
                                 estreitos ou largos que dependem
                                 do tamanho dos passos
                                 que a Coragem tem pra dar."

                                          (Inês Seibert)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

REVEZAMENTO

Minha força pede um momento de licença.
Ela quer sair pra descansar e permitir que a fragilidade atue um pouco em seu lugar.
Depois de um certo tempo a armadura pesa, a lança emperra e se retesa.
Deixe a doçura encostar nesse intervalo da razão.... a decisão saiu um instante pra sonhar.

(Flora Figueiredo)


Por falta de tempo para postagens e interações, faço uma pequena pausa.
Deixo meu abraço, à todos blogs amigos que passam por aqui.
Até breve!

domingo, 4 de junho de 2017

Para as tardes mais frias que se aproximam, vou compartilhar a receita de uma chá que apreciamos bastante aqui em casa, principalmente se for acompanhado de uma fatia de bolo de maçã.

                       CHÁ DE MARACUJÁ

Levar ao fogo uma xícara (chá) de açúcar e deixar formar um caramelo;
Acrescentar a polpa de 3 maracujás médios;
Um litro de água;
1 maça sem casca cortada em cubos;
3 rodelas de gengibre,
1 canela em pau.
Deixar ferver de 15 a 20 minutos, depois é só coar e servir.

Espero que gostem!



terça-feira, 30 de maio de 2017

TERCEIRO ENCONTRO

Tivemos nosso encontro na semana passada. Foi um momento de grande acolhimento e afetividade.
Como o conto que usamos é um tanto longo - mas tenho certeza que vale a leitura - não vou comentar sobre as reflexões da roda de conversas.
Mas desejo que ao ler, sinta dentro de si, a brandura e a alegria, de quem acaba de despertar.

          BRUXAS E COMO DESFAZÊ-LAS 
                 
Quem não sabe ficar sozinha acaba virando Bruxa. Bruxas são seres opacos, que vivem orbitando seres radiantes. Por isto se vestem de preto. Desativaram seus dinamismos de irradiação. Congelaram-se e não têm calor próprio. Precisam a todo instante de calor alheio e vivem distribuindo baldes de água fria.
Têm medo de seu próprio calor, e por isso vivem sendo queimadas em fogueiras. Têm medo de se aquecer e derreter. Têm medo do sol e vivem voando à luz fria da lua.
Vivem se metendo onde não são convidadas, pois suas casas são sempre muito mal arrumadas. Suas vassouras não cuidam da casa nem alisam o chão. Suas vassouras são cavalos secos que transportam inveja. Inveja que seca os pássaros e tudo o que seja caro a qualquer criatura.

Têm verdadeiro ódio de serem esquecidas. E por isso enfeitiçam as pessoas. Modo macabro de se fazerem presentes. É como se dissessem:
– Não te esquecerás nunca de mim e sempre que qualquer coisa começar a te aquecer com seu lado encantado, eu te congelarei de medo. É preciso que fiques sozinha como eu. Para que tua solidão me faça companhia.

Têm medo da chuva e de tudo o que possa umedecer e fertilizar a terra e dar vida a qualquer semente. Por isso são secas e enrugadas. Secam até os sapos, que são bichinhos que gostam de chuva e podem se transformar em príncipes.
Bruxas são seres que desistiram de toda beleza. Murcharam. E que culpam as outras pessoas por isso. Tornaram-se feias por abrir mão de toda bondade. Secaram. Vestiram trapos de escárnio para ostentar todo seu ressentimento. Tornaram-se más para não sentir culpa. Foram vencidas pelo medo de não serem amadas. Encrespadas proclamam:
– Não sou amada porque não quero. Prefiro ser feia e ruim.

Não suportaram o risco de serem ou não amadas. Desistiram e, por um artifício defensivo do orgulho, preferem se destacar por qualquer coisa de feio. Colocam verrugas no nariz.
Bruxas cozinham em caldeirões de seu próprio ser, fétidas misturas de covardia e pretensões. Covardia, pois tendo fugido do amor preparam vinganças à traição. Pretensão, pois tendo se afastado do amor, querem por força permanecer dentro dos outros. Se encheram de reclamações contra o mundo e perderam a possibilidade de se encantar. Bruxas não vibram, estremecem. Não adormecem nem podem despertar. As bruxas estão congeladas de medo. Por isso gostam tanto de assustar os outros.

Para desfazer uma bruxa, são necessários uma montanha de brandura, dois lagos de tranquilidade e uma floresta de algodão. Uma montanha de brandura para acolher todas as chispas, fagulhas e faíscas com que uma bruxa te recebe. Para que não te magoem todos os acessos de ruindade com que uma bruxa procura escapar do tédio. Não te magoes, pois isto poderia fazê-la se aproximar da culpa e refugiar-se na maldade. Branduras que possam ampará-la ao cair da vassoura. Se não fores indiferente, cairá ao não conseguir te ferir. Com isto ela estará encurralada no tédio. Não poderá escapar via maldades. Aqui começa o caminho de volta de uma bruxa. E começarão as angústias. Pois debaixo de cada pedra de tédio existem angústias. Tédios são desvios errôneos com que se buscou evitar sofrimentos. Por esta estrada de volta, as primeiras paisagens são nuvens carregadas de culpa. Todas, muitas e a mais grave: o que fez a si mesma.

Por esta altura já se farão necessários os dois lagos de serenidade. Com suas águas poderás acompanhá-la por todos os abismos, depressões e grotas congeladas que constituem seu desespero. De ter ido tão longe. De ter cultivado tanto ódio, tanta inveja, tanta covardia, tanto orgulho. De se Ter afastado tanto do amor.
Não a deixes sozinha nestas paragens geladas. Ela começa a sentir frio. E esta é a única maneira de se degelar. Não se abandona ninguém, nunca, durante a nevasca. Há riscos de que se perca na neve. Terás de acompanhá-la como a água dos lagos. Água não teme cair. Água não quebra, não tem forma própria. E terás de cair, cair, cair. Como a chuva.

Por fim, num vale em fim de inverno, com a floresta de algodão se tecerá um casulo. Para que a quase ex-bruxa possa se aquecer muito, muito devagar. Mas devagar mesmo, pois que a têmpera do amor é tal que sua força jaz em poder amolecer, derreter e não perder forma.
Do casulo há de sair uma linda borboleta de primavera.
No verão, a borboleta-quase-mulher aprenderá a tecer ninho com as andorinhas. E a guardar tanto calor em seu ventre-colo-seio que será capaz de gerar, aquecer e alimentar sementes e esperanças quando chegar o outono.
Com a proximidade do inverno, há de se lembrar da avozinha que sabia – imaginem! – ficar sozinha. E tricotar. E lembrar. E contar histórias.

Sabem como a avozinha terminaria esta estória (história)? Ela diria:
– E por aquela porta acabou de ir embora uma bruxa. E por esta janela se podem ouvir os pássaros e ver o céu. – E aqui dentro quem procurar… Encontra uma mulher.

(PAULO BARROS)

                          (imagem google)

domingo, 21 de maio de 2017

A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.
Me  tornei  antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E  eu a esperei
como  um  rio  aguarda  a  cheia.
Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.
Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome 
( Mia couto )
                          (Foto de Tais A.)


sexta-feira, 28 de abril de 2017

SEGUNDO ENCONTRO

No encontro desse mês, algumas não puderam participar, ainda assim, a conversa foi muito agradável e proveitosa.
O conto que usamos nos deu oportunidade de falar sobre as expectativas que criamos em relação ao outro.
Nossas buscas, aquilo que desejamos e depois percebemos que não eram tão importantes.
O convívio com pessoas que nos sugam as energias, exigem mais do que somos capaz de dar e nos causam um tremendo cansaço interno. O que fazer?
Somos tecelãs do nosso destino, cabe a nós a escolha. Mas nem sempre é fácil cortar o fio, desfazer os nós e começar uma nova história...

                          (imagem retirada do google)

                          A MOÇA TECELà( Marina Colasanti )

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.
Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ela  poderia lhe dar.
- Uma casa melhor é necessária, -- disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
- É para que ninguém saiba do tapete, -- disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: -- Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.